Não tenha vergonha!
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Não tenha vergonha!

Relato de sentimentos como: divergência social, exclusão, vergonha de profissão da fé etc

9 min de leituraPublicado em 08 de outubro de 2026
Não tenha vergonha!

Há uma coisa curiosa sobre a liberdade: quase todo mundo gosta dela enquanto ela diz aquilo que queremos ouvir. Falar sobre liberdade de expressão é fácil quando a pessoa diante de nós concorda. Difícil é permanecer quando a voz do outro nos incomoda; quando ela escolhe um caminho diferente, acredita em coisas que já deixamos de acreditar, veste aquilo que não vestiríamos, reza para aquilo que já deixamos de rezar. É nesse momento que descobrimos se realmente defendemos a liberdade ou apenas gostamos da sensação confortável de ouvir pessoas que pensam como nós.

Talvez seja por isso que determinadas reações nas redes sociais sejam tão difíceis de compreender. Uma pessoa pode falar sobre amor, igualdade, liberdade, respeito e defesa da mulher durante horas e, poucos minutos depois, desejar que uma mulher que pensa diferente apanhe do próprio marido, que vá para o Afeganistão ou que simplesmente deixe de ter voz. Não é necessário concordar com aquilo que essa mulher pensa. Não é necessário gostar da sua religião, das suas escolhas ou das suas opiniões. Mas em que momento a discordância passou a ser justificativa para desejar sofrimento ao outro? Em que momento deixamos de enxergar uma pessoa e passamos a enxergar apenas o rótulo/partido que colocamos sobre ela?

É uma contradição que me entristece. Não porque eu espere que todos concordem comigo, mas que me concedam o respeito. Eu não acredito que o mundo precise pensar como eu para que eu possa respeitá-lo. Existem pessoas que vivem de maneiras completamente diferentes da minha, que defendem ideias que considero erradas e que possuem convicções que jamais adotaria. E ainda assim continuam sendo pessoas. Continuam tendo dignidade. Continuam tendo o direito de falar. Posso discordar profundamente sem desejar que sejam humilhadas, silenciadas ou destruídas. Parece uma conclusão extremamente simples, mas, olhando para a forma como temos nos tratado, talvez ela tenha se tornado extraordinariamente difícil.

Existe também uma espécie de apropriação de tudo aquilo que deveria ser simplesmente humano. Um cantor precisa pertencer a um lado. Uma música precisa ser “de um grupo”. Uma obra de arte precisa carregar uma bandeira. Se você gosta de determinada música, alguém imediatamente quer saber o que mais você pensa; se você admira determinado artista, querem descobrir em qual caixa política você deve ser colocada. Como se apreciar uma obra significasse concordar com absolutamente tudo o que existe por trás dela. Como se a cultura tivesse dono. Como se uma música deixasse de ser bonita porque alguém decidiu que ela pertence ao lado errado.

E há algo ainda mais curioso: muitas vezes, as pessoas sequer leem. Leem uma frase, veem uma fotografia, reconhecem uma palavra e imediatamente constroem uma pessoa inteira dentro da própria cabeça. Decidem o que você pensa, o que você defende, o que você acredita e até aquilo que você deveria sentir. Não conversam com você; conversam com a versão de você que inventaram. E talvez seja por isso que tantas discussões sejam tão violentas: não estamos mais discordando de pessoas reais, mas de caricaturas que criamos delas.

É nesse ambiente que ser católico, especialmente sendo jovem, pode parecer uma espécie de provocação. Na escola, no ensino médio, na faculdade, no trabalho, nas redes sociais, pode existir uma pressão silenciosa para que a nossa fé seja mantida em uma parte escondida da nossa vida. É mais confortável quando ninguém sabe. Quando o rosário fica dentro da bolsa. Quando não falamos sobre a Missa. Quando não dizemos que discordamos. Quando escondemos determinadas convicções para evitar aquele olhar de reprovação, aquele comentário irônico ou a necessidade cansativa de explicar por que acreditamos naquilo que acreditamos.

Mas não deveríamos ter vergonha de ser católicos.

Não deveríamos ter vergonha de dizer que acreditamos em Cristo, de frequentar a Missa, de defender aquilo que a Igreja ensina ou de viver de acordo com aquilo que recebemos da nossa fé. Não deveríamos precisar diminuir nossas convicções para parecermos mais aceitáveis. Ao mesmo tempo, não podemos confundir essa coragem com arrogância. Ser católico não nos dá licença para invadir a vida de quem não pediu nossa opinião, para humilhar quem pensa diferente ou para acreditar que somos melhores do que os outros. A verdade que professamos não se torna mais verdadeira quando é acompanhada de crueldade.

Talvez essa seja uma das coisas mais importantes que um jovem católico precise aprender: não basta ter coragem para professar a fé; é preciso ter caridade para professá-la. Se alguém não acredita como nós, isso não nos autoriza a tratá-lo como inimigo. Se alguém nos procura para conversar, podemos explicar. Se um amigo pergunta por que acreditamos em determinada coisa, podemos responder. Se alguém sinceramente deseja conhecer a Igreja, temos o dever de ajudá-lo. Mas não precisamos transformar cada pessoa que pensa diferente em uma batalha que precisamos vencer.

E, para isso, precisamos conhecer aquilo que professamos. Há algo especialmente triste em alguém ser atacado por ser católico e não saber sequer explicar por que é católico. Não precisamos saber responder a tudo, nem ter uma resposta perfeita para cada crítica. Podemos dizer “não sei” e procurar. Podemos estudar. Podemos perguntar. Podemos conhecer o Catecismo, a doutrina, a história da Igreja, a Escritura e a tradição que recebemos. Porque, quando não conhecemos a nossa própria fé, qualquer caricatura dela pode parecer verdadeira.

Nós também somos exemplos, embora não sejamos perfeitos. E talvez seja justamente essa a parte que mais assusta. Muitas pessoas nunca lerão o Catecismo, nunca conversarão profundamente com um Padre, nunca estudarão a doutrina da Igreja. Algumas delas talvez conheçam apenas um católico. E, querendo ou não, a nossa vida pode se tornar para elas uma pequena janela através da qual enxergam aquilo que imaginam ser o catolicismo. Isso não significa que alguém precise olhar para nós e pensar que somos perfeitos. Significa apenas que precisamos tomar cuidado para que a nossa maneira de viver não contradiga completamente aquilo que dizemos professar. Que encontrem em nós firmeza sem crueldade, convicção sem arrogância, verdade sem desprezo e, acima de tudo, caridade.

Porque também existe uma diferença enorme entre ser perseguido e responder perseguindo. Entre ser odiado e aprender a odiar. Entre receber uma palavra cruel e devolvê-la na mesma medida. Talvez seja muito fácil falar sobre amor quando estamos diante de pessoas que nos amam. O verdadeiro desafio aparece quando encontramos alguém que nos despreza. É aí que descobrimos se aquilo que pregamos realmente chegou ao nosso coração.

E eu não digo isso porque acredito que ser perseguido seja bonito. Não é. Ser mal interpretado dói. Perder amizades dói. Descobrir que alguém passou a enxergar você de maneira completamente diferente simplesmente porque conheceu uma parte das suas convicções dói. Ler determinadas palavras sobre si mesma dói. Às vezes dá vontade de chorar, de responder, de provar que estão errados, de mostrar que você não é aquilo que decidiram que você é. Mas talvez exista uma liberdade muito maior do que a necessidade de convencer todos a nosso respeito: a liberdade de saber quem somos diante de Deus.

Nem sempre conseguiremos ser compreendidos. Nem sempre conseguiremos explicar tudo. Nem sempre teremos a oportunidade de responder. E talvez nem devêssemos responder a tudo. Há discussões que não nos aproximam da verdade; apenas nos afastam da caridade. Há pessoas que não querem conversar, querem apenas ferir. E reconhecer isso também é uma forma de sabedoria.

A fé católica nunca nos prometeu uma vida sem cruz. Pelo contrário: ela nos ensina a reconhecer a cruz quando ela aparece e a entregá-la a Cristo. Não somos uma religião do sofrimento pelo sofrimento. Somos uma religião que aprendeu, em Cristo, que até mesmo o sofrimento pode ser oferecido, transformado e atravessado com esperança. A cruz continua sendo pesada. Continua doendo. Mas não precisa ser carregada sozinha.

Cristo foi rejeitado, incompreendido, abandonado e perseguido. Foi levado à Cruz por aqueles que não queriam ouvi-Lo. E isso não significa que toda crítica que recebemos seja uma perseguição comparável à de Cristo, nem que devamos procurar sofrimento para provar a nossa fé. Significa apenas que não deveríamos nos surpreender tanto quando descobrimos que seguir alguém que foi rejeitado também pode nos fazer experimentar rejeição.

Então, quando vierem as palavras cruéis, entreguemos a Deus. Quando uma amizade terminar por causa da nossa fé, entreguemos a Deus. Quando alguém nos interpretar completamente errado, entreguemos a Deus. Quando tivermos vontade de responder com a mesma violência, talvez seja justamente nesse momento que precisemos parar, respirar e lembrar quem estamos tentando seguir.

Isso não significa permanecer calado diante de toda injustiça. Não significa aceitar abusos, ameaças ou violência. Não significa acreditar que devemos permitir que alguém nos machuque. Nao significa que nós não devemos sofrer (porque eu sei o como é duro essa divergência). Significa não deixar que o ódio do outro determine aquilo que nasce dentro de nós.

Talvez o mundo já tenha ódio suficiente. Talvez aquilo que esteja faltando seja justamente alguém que consiga permanecer firme sem se tornar cruel.

Por isso, aos jovens católicos que talvez estejam lendo isso e sentindo medo de assumir aquilo que são, eu gostaria de dizer: não tenham vergonha. Não escondam a sua fé apenas porque alguém pode rir. Não abandonem uma convicção apenas porque ela se tornou impopular. Não deixem que o medo de perder aprovação faça vocês perderem aquilo que amam. Conheçam a Igreja. Estudem. Perguntem. Rezem. Aprendam a responder, mas aprendam também a permanecer em silêncio quando a resposta servir apenas para alimentar uma briga.

E, principalmente, não tenham vergonha de serem católicos.

Porque talvez algumas pessoas prefiram um católico calado, que não questiona, não discorda, não demonstra aquilo em que acredita e não se posiciona. Mas a nossa fé não foi feita para ser escondida no fundo de uma bolsa junto com um rosário. Ela precisa aparecer na nossa vida ; não como uma arma, não como uma superioridade, mas como testemunho.

Que possamos falar sem odiar. Discordar sem humilhar. Defender a verdade sem perder a caridade. E, quando a nossa voz incomodar, que tenhamos coragem de continuar sendo fiéis sem transformar a fidelidade em desprezo.

No fim, talvez seja isso que significa carregar a cruz: não procurar o sofrimento, mas, quando ele chegar, não permitir que ele nos transforme naquilo que um dia juramos combater.

E se não formos compreendidos por todos, tudo bem.

Cristo também não foi.

Que a nossa parte seja permanecer fiéis, e entregar o resto a Deus.

Tags:#Social

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